13 dias em uma Unidade de Saúde Mental: um relato sobre depressão

15/03/2020

Teseu adentra no labirinto, encontrando, em seu centro, o terrível monstro Minotauro. Ele mata a criatura e ressurge triunfante. Teseu enfrentou seus próprios demônios, seus medos e angústias ao percorrer um caminho desafiador. Ao matar o Minotauro, Teseu deu fim à sua própria natureza bestial, retornando então à civilização exterior após um longo caminho.


O labirinto

Conheci uma garota de programa abusada sexualmente quando criança; um engenheiro cujo divórcio e pressão no trabalho lhe causaram uma enorme crise de ansiedade; uma ex-usuária de drogas acusada de homicídio ao esfaquear, no pescoço, um pai que estuprou a própria filha; um homem que planejava vingança contra um traficante de drogas; uma mulher que colocou uma corda no pescoço, sendo impedida de cometer a ação apenas por que no exato momento sua filha entrou no aposento; um homem que tentou suicídio ao bater seu carro contra uma árvore; uma senhora solitária, com intensas crises de choro; um senhor que passava 24 horas deitado na cama por não encontrar motivos para levantar; uma jovem mãe que ingeriu grande quantidade de medicamentos e bebida alcoólica, com intenção de tirar a própria vida; um homem humilde que se entregou à bebida; uma mulher batalhadora, encontrada vagando em um cemitério com seus pulsos cortados; um senhor com demência, que por "teimosia" retirava suas fraldas geriátricas.

Todos estes pacientes são mães, pais, filhos, irmãos, funcionários de empresas, com idades entre 20 e 70 anos. Todas as descrições acima foram apresentadas de modo a dificultar a identificação destes pacientes. Embora cada descrição conte uma história real, adicionei modificações: talvez aquele que descrevi como homem seja na verdade uma mulher, ou talvez o mesmo paciente tenha sido descrito duas ou três vezes, fazendo parecer que se tratava de vários pacientes. De qualquer modo, tais alterações não manipulam negativamente a leitura deste texto. Um texto que sinceramente espero que ajude outras pessoas com os mesmos problemas, pois além de conhecer pessoalmente estes pacientes e suas incríveis histórias, fui um personagem importante naquela unidade de saúde mental. Eu também era um paciente.

Após uma sequência de eventos frustrantes relacionados à problemas financeiros e solidão, fui atingido por um episódio depressivo grave (CID F32.2) no início de 2020. Procurei ajuda psiquiátrica, e por sugestão deste profissional, voluntariamente fui internado na unidade de saúde mental de um hospital durante 13 dias. "Não me fará mal, e pode ser, além de saudável, algo interessante", eu pensei. Mas logo no primeiro dia, aquilo parecia a pior decisão da minha vida. Mas no décimo terceiro dia, aquilo com certeza foi a melhor decisão da minha vida.

A internação

Não eram permitidos cigarros, celulares, cintos, latas, desodorantes spray, objetos cortantes ou pontiagudos. Visitas de familiares eram apenas uma vez na semana, com duração de uma hora. A equipe era composta por várias enfermeiras, seguranças, merendeiras e faxineiros em revezamento; uma psicóloga; dois estagiários de Psicologia; um psiquiatra e uma terapeuta ocupacional. Cada membro da equipe ocupava um papel fundamental na organização da unidade e sou grato à cada um deles. Entre os pacientes, não havia julgamentos ou intrigas, pois todos tinham algo em comum. Naquele lugar nós formamos uma grande amizade. Talvez "grande amizade" seja um conceito complexo para uma experiência de apenas 13 dias, mas lá dentro, o tempo e os acontecimentos funcionam de forma diferente de como funcionam aqui fora, no mundo exterior.


Breve crítica à sociedade moderna

Esqueçam a cultura da Grécia Antiga: o culto ao corpo, à autoimagem e às aparências ocorre agora. Neste período histórico da era digital e das redes sociais, repleto de relações superficiais e comportamentos padronizados, influenciados por ícones sem qualquer conteúdo intelectual e moral, a depressão existe em segredo. Os "príncipes" e as "princesas" das redes, que escondem sua depressão e têm vergonha de uma internação psiquiátrica, precisam abaixar a cabeça e retirar suas coroas. Afinal, objetos pontiagudos não seriam permitidos. E infelizmente pude presenciar este fato: nem o paciente suicida nem membros de sua família aceitavam a internação. Esta situação é gravíssima e muito comum. A depressão, ou a diminuição de um neurotransmissor chamado serotonina, é uma doença como qualquer outra, e necessita de tratamento antes que seja tarde demais.


Considerações

Decidi publicar este texto por três razões: primeiro, para ajudar aqueles com problemas similares; segundo, por ter sido uma experiência incrível que precisava ser compartilhada; terceiro, para ser sincero com meus leitores a respeito de meu universo mental. Saí do labirinto vitorioso, pois encontrei o Minotauro e o matei, guardando sua cabeça como recordação. E seu fantasma me perseguirá por um longo tempo, mas sei que enquanto eu praticar os rituais terapêuticos corretamente, o fantasma não me fará mal. Esta internação voluntária foi, sem dúvida, uma das experiências mais importantes para minha evolução pessoal, para minha inteligência emocional e para meu amadurecimento de espírito.