O Aprendiz Verde

01/01/2017

Contribuí como coautor para o maior site brasileiro sobre serial killers, em novembro de 2017 e janeiro de 2018. O Aprendiz Verde publicou respectivamente matérias sobre Edward Leonski, conhecido como "o assassino do brownout", e os "101 crimes notórios e horripilantes de 2017". Abaixo se encontra o texto sobre Leonski, e para ler o artigo em sua página original, basta clicar na imagem abaixo. Para ler o artigo sobre os 101 crimes mais notórios de 2017, o qual auxiliei na escrita do crime número 1, clique na imagem ao final desta página.

Edward Leonski: o serial killer do brownout

Dias tristes na história criminal Vitoriana. Em cada dia uma mulher encontrada brutalmente morta, cada morte por estrangulamento, cada uma a uma milha [de distância] da outra - uma na cidade, uma no sul, uma no norte. Nada como isso aconteceu antes, e em uma onda pública de horror e algo perto do medo, detetives às dúzias começaram o que parecia, à primeira vista, uma tarefa impossível - encontrar o assassino ou assassinos. Cada dedução apontava para os crimes sendo 'assassinatos padrão', e quando a investigação afunilou, autoridades do Exército dos Estados Unidos se juntaram aos detetives Victorianos na caçada - Dramatic Scenes at Murder Trial, Truth Newspaper, 18 de Julho de 1942.

Melbourne, Austrália | 9 de Novembro de 1942

Uma van da prisão chegou até a casa de detenção City Watch House, em Melbourne, Austrália, para buscar um jovem americano. Enquanto estava sendo levado, ele disse ao guarda: "Então, amigo, eles vão me dar uma repaginada".

Havia uma pista óbvia de que aquele não era um prisioneiro comum. A van tinha escolta do Exército dos Estados Unidos quando o levou para a Prisão de Pentridge, onde foi entregue ao carrasco que o esperava. Conduzido em segredo, sua execução não foi registrada nos papéis da prisão. Mas uma declaração foi posteriormente emitida do outro lado do mundo, em Washington, pelo General George Marshall, chefe do Gabinete do Exército dos Estados Unidos:

"A sentença imposta pela corte marcial sobre Leonski foi aprovada pela Junta de Revisão e pelo Comandante Chefe e foi executada hoje".

E se aqueles que deveriam servir e proteger se tornassem aqueles que deveríamos temer? O militar americano Edward Joseph Leonski foi sentenciado à morte pelo assassinato de três mulheres na década de 40. Não muito diferente da maioria dos serial killers, Edward teve uma infância difícil devido às caóticas relações familiares. A violência presenciada nesta época desencadeou em Edward uma agressividade que seria vista mais tarde durante seu período servindo no exército

Pode-se supor que o serviço militar, em plena Segunda Guerra, repleto de atividades enérgicas geradoras de adrenalina pura, se tornou o ambiente perfeito para aflorar sua personalidade violenta. As demonstrações de masculinidade e bebedeira de Edward durante sua estadia militar, juntamente com seu modus operandi nos assassinatos, revelam a necessidade de se provar como homem, além, claro, de seu perfil extremamente violento, algo que já vinha sendo lapidado desde sua infância.

Em Serial Killers - Anatomia do Mal, Harold Schechter diz que:

Ao longo dos milênios, quando guerras sangrentas eram parte da vida cotidiana das pessoas, um assassino psicopata que apreciasse fazer mal aos outros podia ingressar no exército e assassinar brutalmente homens, mulheres e crianças o quanto quisesse - e ainda ganhar uma promoção por isso. A famosa série de gravuras de Francisco Goya Os Desastres da Guerra (1810-1815) - com suas imagens de violação, castração e esquartejamento - deixa assombrosamente claro que o combate sempre proporcionou uma oportunidade para que sádicos uniformizados satisfizessem sua sede de sangue.

Obviamente que tal afirmação se refere à ação no campo de batalha, mas o simples fato de estar servindo no exército em tempos sangrentos pode desencadear em personalidades maléficas o homicida adormecido. É o caso de Leonski.

Edward Joseph Leonski, chamado de Eddie por seus amigos, nasceu em Kenvil, Nova Jersey, em 12 de dezembro de 1917. Seu pai, John, era um imigrante russo, e sua mãe, Amelia, polonesa. Ambos eram alcoólatras, com sua mãe mentalmente instável e muito controladora. Bastante agressivo, seu pai abandonou a família quando Eddie tinhas seis anos de idade. Sua mãe, então, conheceu outro homem e começou a se relacionar com ele. Como histórias deste tipo tendem a se repetir, o homem também era alcoólatra. Os irmãos de Eddie, refletindo os tristes eventos familiares que lhes ocorriam, não escaparam do destino errante. Dois passaram a maior parte de suas vidas atrás das grades, o terceiro internado em um hospital psiquiátrico. Quando sua mãe ficou mal de vez da cabeça, foi internada em um asilo.

O ex-agente do FBI e especialista em serial killers John Douglas, escreveu em seu best-seller Mindhunter que praticamente todos os serial killers provêm de famílias disfuncionais, eles crescem em "Situações familiares instáveis, abusivas ou marcadas por privações". A dra. Dorothy Otnow Lewis, que assim como Douglas conduziu extensas entrevistas com serial killers condenados, incluindo Ted Bundy - é categórica ao afirmar que, além de quaisquer problemas neurológicos que eles possam ter, serial killers invariavelmente tiveram uma "criação violenta e abusiva". Obviamente que problemas familiares ou abuso na infância estão longe de ser a causa do assassinato em série, mas certamente é um fator desencadeador para uma mente instável e voltada para a maldade. Outro ponto que notamos no caso Leonski, e comum a vários outros serial killers, é o ódio (mesmo que inconsciente) direcionado à mãe. O Mirror, citando um psicólogo que esteve com Leonski, escreveu na época:

Inibições levaram ele a um dos mais raros e menos entendidas formas de assassinato, o matricídio simbólico. Sem ter consciência de que ele queria matar sua mãe - com sua mãe estando a 10 mil milhas de Melbourne -, Leonski se virou para substitutos.

De acordo com psiquiatras, a aversão que tais assassinos sentem pelas mães acaba sendo projetada em todas as mulheres, produzindo o que o escritor policial Stephen Michaud chamou de "misoginia maligna". As mulheres acabam sendo vistas como criaturas repulsivas e nocivas que merecem ser brutalizadas - um sentimento expresso de maneira horripilante por Kenneth Bianchi, o "Estrangulador da Colina", que defendia firmemente suas atrocidades: "Não fiz porra nenhuma de errado. Por que é errado se livrar de algumas bocetas fodidas?"


Os assassinatos começam

Tendo uma mãe super-protetora e controladora, Eddie passou a ser jocosamente chamado pelos colegas de "menininho da mamãe". Para provar sua masculinidade e autonomia, Leonski começou a levantar pesos com objetivo de ganhar força e um físico amedrontador. Quando trabalhava em um supermercado em Manhattan, Nova Iorque, em fevereiro de 1941, foi convocado para o serviço militar. Longe das asas da mãe, Eddie repetiu o comportamento dos pais: todas as noites saia do quartel e enchia a cara em algum bar, bebendo até 30 garrafas de cerveja. Durante uma estadia no Texas, após uma noite de bebedeira, tentou estrangular uma mulher. Acusado de agressão, foi preso, porém a vítima decidiu não registrar queixa-crime. Assim ele não foi expulso do exército.

Chegando em Melbourne, em fevereiro de 1942, foi alojado em um acampamento chamado Camp Pell, em Royal Park. Sua personalidade violenta e destrutiva continuou, dessa vez pior. Leonski passou a andar atrás de mulheres nas ruas escuras da cidade australiana. Ele tentou estuprar uma em seu apartamento em St. Kilda, mas ela conseguiu escapar. Então tentou estrangular outras mulheres que também conseguiram fugir. Sua identidade era escondida pela proposital falta de luminosidade nas ruas devido a guerra, um blecaute conhecido como "brownout". A cidade desligava as luzes com medo de um bombardeio japonês.

Em 3 de maio, em Albert Park, Ivy Mcleod, 40 anos, aguardava um bonde quando foi avistada pelo seu futuro assassino. Ela foi espancada e estrangulada. Como a bolsa de Mcleod foi encontrada junto ao corpo, a polícia descartou a hipótese de roubo. Durante as investigações, um outro corpo foi encontrado: Pauline Thompson, 31 anos, esposa de um policial, morta em 9 de maio. Após conversar e beber com Eddie, ele ofereceu-se para levá-la para casa, e ela, em seu último momento de felicidade, cantou durante o caminho. Quando parou de cantar, foi esganada até a morte. "Ela estava cantando no meu ouvido. Parecia que ela estava cantando para mim. Ela tinha uma boa voz. Eu a agarrei. Peguei ela, eu não sei por quê. Ela parou de cantar".

Investigando o crime, a polícia pegou um manequim, vestiu com as roupas da vítima e plotou uma fotografia do rosto de Pauline, na tentativa de que alguma testemunha aparecesse. A polícia sabia que estavam atrás de um soldado americano, já que uma das pistas encontradas dava conta que Pauline havia sido vista com um em um café.

Em uma confissão assustadora, Leonski confessou o assassinato de Pauline a um colega durante uma noitada. Ele leu as notícias no jornal sobre o crime e se comparou ao personagem principal do romance gótico "Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde". "Eu sou como ele... duas personalidades", disse ele. Em uma cidade onde o homicídio ainda é raro, as mulheres de Melbourne ficaram aterrorizadas. A ameaça não vinha do Japão, mas sim da escuridão da cidade.

Em 18 de maio ocorreu o último assassinato do soldado americano. Gladys Hosking atravessava o Royal Park cantarolando. E pela última vez, e novamente, a história se repetiu. Este foi o último canto de Gladys, assim como anteriormente aquele fora o último canto de Pauline Thompson. Após assassinar Gladys, Eddie foi parado por um guarda no parque que perguntou porque ele estava todo sujo de lama. O soldado americano deu uma desculpa qualquer e seguiu seu caminho. Mas o testemunho do guarda, assim como as falas de testemunhas dos outros crimes, levou a polícia australiana até o quartel-general dos americanos.

Depois de dias em Camp Bell interrogando soldados americanos, investigadores chegaram até o quarto de Leonski, onde lama amarela foi encontrada no chão, sapatos e cama; o mesmo composto de lama da cena do crime. Eddie foi identificado e preso em 22 de maio. "Ela tinha uma voz encantadora. Eu queria isso para mim", revelou à polícia sobre o assassinato de Gladys. A obstinação da polícia de Melbourne não deixou que Leonski fizesse mais vítimas. A polícia tinha agora seu homem. Edward Leonski nunca enfrentou um julgamento por seus crimes, ao contrário, ele encarou a corte marcial dos Estados Unidos em um julgamento que durou cinco dias.

De acordo com jornais da época, como o Cairns Post, a entrada no local - realizada em um lugar secreto - era quase impossível. Entradas dadas a mais de 50 testemunhas, incluindo jornalistas e oficiais americanos e australianos eram verificadas pelo exército dos Estados Unidos que vigiavam as portas do tribunal. Um psiquiatra australiano testemunhou ao tribunal que Leonski tinha uma "personalidade psicopática" e seguramente mataria de novo se não tivesse sido parado. Leonski foi considerado culpado de três assassinatos e condenado à morte. Por 22 semanas, ele dormiu em uma cela da City Watch House e eventualmente leu uma carta do Presidente dos Estados Unidos Franklin Roosevelt confirmando sua sentença de morte.

Em 8 de novembro de 1942, Leonski recebeu a informação de que seria enforcado no dia seguinte. Soldados americanos o escoltaram até os porões da Prisão de Pentridge e às 6h da manhã de 9 de novembro, após seis outros criminosos terem sido enforcados nos minutos anteriores, Leonski foi executado.

Em Washington, o Chefe de Gabinete do Exército dos Estados Unidos, General George Marshall, escreveu que "A sentença imposta pela corte marcial sobre Leonski foi aprovada pela Junta de Revisão e pelo Comandante Chefe e foi executada hoje". Setenta e cinco anos depois, os documentos da corte marcial e da execução permanecem guardados a sete chaves pelo governo dos Estados Unidos. O corpo de Leonski foi enterrado no Cemitério Springvale antes de ser exumado em 1945 e transladado para o Havaí, onde foi enterrado em um cemitério militar. A história de Leonski é contada no filme "Death of a Soldier" (1986), com James Coburn e Reb Brown.

"Quando vemos algo assim, esquecemos a coisa mais importante e óbvia, essas borboletas nunca mais voarão. É não natural, e ainda tão sedutor. Esse é exatamente o efeito que a morte tem em alguns indivíduos. É por isso que serial killers existem" - Donato Carrisi, escritor.