Sinais e hipóteses

01/01/2019

Introdução

Este artigo visa apresentar o signo indiciário em Charles S. Peirce e como seu pensamento pode ser aplicado às ciências humanas. Afinal, muitas ciências provêm de um conhecimento adquirido através de hipóteses (método abdutivo). Hipóteses são consequências mentais das percepções sobre os signos indiciários. Portanto, o estudo desse tipo de signo é fundamental para a Filosofia da Ciência e para uma maior compreensão de como obtemos conhecimento e como o utilizamos no cotidiano. Os signos, como indícios, são percebidos nas mais diversas áreas, como a Medicina, a Biologia, a Psicologia, a investigação criminal, os estudos sociais, etc.

Como forma principal de argumentação foram usados os escritos de Peirce conhecidos como Collected Papers (1931-58), traduzidos por mim e registrados conforme abreviatura padrão, utilizada nacionalmente e internacionalmente na realidade acadêmica como CP, acompanhados dos números que referenciam seu respectivo volume e parágrafo, por exemplo: "todo pensamento é um signo" (PEIRCE, 1994, CP 1.538).

Este artigo pode ser lido no site Contra os Acadêmicos.

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O signo como linguagem do mundo

O signo é o elemento de estudo de uma ciência chamada semiótica. Descrita por Lúcia Santaella como "a ciência geral de todas as linguagens," (1983, p. 7) a semiótica estuda tanto as formas verbais quanto as não-verbais de todos os possíveis tipos de comunicação e significação, pois, conforme nossa existência no mundo se desenvolve, nos comunicamos através de diferentes formatos de linguagem e nos orientamos por "imagens, gráficos, sinais, setas, números, luzes... através de objetos, sons musicais, gestos, expressões, cheiro e tato, através do olhar, do sentir e do apalpar" (SANTAELLA, 1983, p. 10). A semiótica estuda tudo aquilo que detém algum significado. Todos estes meios de comunicação, de ordem e de compreensão do mundo, para Santaella constituem o ser humano como um ser essencialmente comunicativo, um ser de linguagem, produtor de elementos de significação. A semiótica pode ser considerada como a ciência que estuda os signos. Mas o que se entende por signo?

Conforme Mark O' Connel (2011, p. 1), um signo é uma representação parcial, ou uma indicação, de algum objeto mais concreto, sendo o signo o transmissor de informações acerca do objeto, ou, de modo simplista, o signo é uma coisa que representa outra coisa. O' Connel ainda escreve, no mesmo parágrafo, uma citação possível de ser comparada aos pensamentos de Santaella: "se não pudéssemos classificar o mundo utilizando dos códigos e estruturas simbólicas, seríamos dominados por dados sensoriais" (O'CONNEL, 2011, p. 1). Os códigos e estruturas simbólicas mencionadas se tratam das palavras, dos números e outros meios de comunicação e compreensão da realidade fabricados pela humanidade. Os termos "linguagem" e "signo" são sinônimos. Nesta linha de pensamento, escrevi em meu livro Introdução à Semiologia Investigativa que "para dar sentido às coisas do mundo e nos apropriarmos dele, utilizamos da linguagem para classificar, distinguir, qualificar, nomear, medir e expressar" (2018, p. 16).

Esses meios possuem em sua essência o intuito de dominação da realidade, do mundo e do meio social por parte dos seres humanos, sendo o homem um animal social. Para o propósito deste artigo, não há necessidade de menção aos processos evolutivos e biológicos da linguagem e da socialização do homem, portanto, as informações aqui expostas limitam-se aos pilares da Filosofia. Ademais, ao estudar todas as formas de linguagem, por consequência a semiótica tem como objeto de estudo os fenômenos culturais e sociais:

Considerando-se que todo fenômeno de cultura só funciona culturalmente por que é também um fenômeno de comunicação, e considerando-se que esses fenômenos só comunicam porque se estruturam como linguagem, pode-se concluir que todo e qualquer fato cultural, toda e qualquer atividade prática social constituem-se como práticas significantes, isto é, práticas de produção de linguagem e de sentido. (SANTAELLA, 1983, p. 12)

As descrições apresentadas classificam um tipo específico de signo. Como explicado por Winfred Nöth (1995, p. 32), trata-se de um signo convencional. Este signo é utilizado, como o próprio nome diz, de maneira convencional, pois ele é fabricado, estipulado, normatizado. Como exemplos de signo convencional temos as palavras, os números, os gestos simbólicos, os brasões, as insígnias, pois tratam-se de signos que representam objetos, coisas, sentimentos, ações, qualidades e fenômenos. Santaella explica o signo convencional através do seguinte exemplo: a palavra "casa" tem o potencial de gerar na mente daquele que a lê ou a escuta uma gama de signos equivalentes, como as palavras "habitação, moradia, lar" (1983, p. 61), que possuem o mesmo significado da palavra "casa". A palavra é o signo convencional, e a casa real é o objeto.

Se os sons vocais, a escrita e as normas culturais são signos do tipo convencional, existiria algum outro tipo de signo não relacionado à linguagem padrão? A resposta para esta pergunta é "sim". Um signo natural, ao contrário do signo convencional, surge sem propósito algum, ele nasce naturalmente, de forma orgânica e não-mecânica. Ele geralmente não é fabricado. Como exemplo de signo natural pode-se citar fumaça ou pegadas no solo. "Os símbolos e signos aparecem na natureza [...], como no caso de fumaça, que significa fogo por perto, ou pegadas, simbolizando a presença de um animal em particular" (O' CONNEL, 2011, p.1). Nesta situação, o fogo é o objeto que produz a fumaça (signo), assim como o animal ao produzir a pegada.

Diferente do signo convencional, o signo natural surge em eventos coincidentes, de causa e efeito, e normalmente não possuem um propósito para ser. Um signo, seja ele convencional ou natural, pode surgir na forma de imagem, de movimento, de som, de sensação. Santaella explica que todo e qualquer fenômeno lançado aos sentidos cria um signo na consciência de quem o percebe, causando uma "mediação irrecusável entre nós e os fenômenos" (1983, p. 51).

Para Peirce, tratando-se dos signos em geral, "o melhor exemplo é o dos odores, pois são sinais em mais de um sentido. É uma percepção comum que os odores trazem de volta memórias antigas" (1994, CP 1.313). Para Peirce, odores possuem um potencial de representação como signos pois trazem à mente qualidades, através de uma associação por semelhança. Tal associação opera na mente através do que Peirce nomeou como o signo representante e o signo interpretante. Um representante é todo e qualquer signo que se apresentar a um sujeito (seja de forma visual, auditiva, gustativa, olfativa e tátil), o signo que se encontra na realidade externa, no mundo; e interpretante é o signo pensado pelo sujeito ao perceber o primeiro signo, o signo que se encontra na realidade interna, a mente do sujeito.

Um signo, ou representante, é aquilo que, de certa maneira, representa alguma coisa para alguém. Destina-se à alguém, cria na mente da pessoa um signo equivalente, ou talvez um signo mais desenvolvido. Para o signo assim criado eu chamo de interpretante do primeiro signo. O signo representa algo, seu objeto. Não representa esse objeto em todos os seus aspectos, mas em relação a um tipo de ideia que por vezes chamei de representante. (PEIRCE, 1994, CP 2.228)

Quando um observador capta um signo através dos sentidos, em sua mente nasce o signo interpretante, aquele que interpreta o signo percebido. "O signo não afeta o objeto, mas é afetado por ele; de modo que o objeto deve ser capaz de transmitir pensamento [...]. Todo pensamento é um signo" (PEIRCE, 1994, CP 1.538). No exemplo citado sobre fumaça ser signo para fogo, se um observador imaginar (interpretar) um incêndio como causa para a fumaça, e supondo que esteja correto sobre a causa do fenômeno observado, o signo interpretante está de acordo com a realidade externa. "Um sinal é algo, A, que denota algum fato ou objeto, B, para algum pensamento interpretante, C" (PEIRCE, 1994, CP 1.346). Mas, na situação contrária, caso o signo interpretante não represente o objeto real que originou o signo representante (supondo que a fumaça seja causada por uma grande quantidade de gelo seco, ou seja apenas uma neblina densa e escura), o observador criou uma imagem errônea da realidade, se e somente se o alvo inicial deste observador for compreender a realidade externa através do fenômeno observado.

Se o signo é uma representação parcial de seu objeto, o signo interpretante está passível de não compreender o objeto real em sua totalidade. Esta possibilidade é ocasionada pela falta de dados no signo, e/ou limitação cognitiva e bagagem de conhecimentos do observador. Em outras palavras, o que é um signo para um indivíduo pode não ser para outro, visto que "nada é um sinal a menos que seja interpretado como sinal" (PEIRCE, 1994, CP 2.172). Mesmo que dois indivíduos observem o mesmo signo, aquilo só será um signo para o indivíduo que o perceber como tal.


O signo índice

O signo protagonista a partir deste ponto (pois existem três tipos importantes, o índice, o ícone e o símbolo) é aquele identificado por Peirce como índice, o signo que opera indicando seu objeto.

Vamos examinar alguns exemplos de índices. Eu vejo um homem com um certo tipo de andar. Esta é uma provável indicação de que ele é um marinheiro. Eu vejo um homem de pernas curtas com calças de veludo, polainas e jaqueta. Estas são prováveis indicações de que ele é um jóquei ou algo do tipo. Um cata-vento indica a direção do vento. Um mostrador solar ou um relógio indicam a hora do dia. (PEIRCE, 1994, CP 2.285)

Santaella (1983, p. 66) esclarece que "o índice, como seu próprio nome diz, é um signo que como tal funciona porque indica uma outra coisa com a qual ele está atualmente ligado. Há, entre ambos, uma conexão de fato". Tal conexão não se encontra nos signos ícone e símbolo que, mesmo representando algo, não estão conectados ao seu objeto de mesmo modo que o índice e seu objeto estão conectados, havendo uma dependência entre ambos, uma ligação inseparável.

Rastros, pegadas, resíduos, remanências, são todos índices de alguma coisa que por lá passou deixando suas marcas. Qualquer produto do fazer humano é um índice mais explícito ou menos explícito do modo como foi produzido. Uma obra arquitetônica como produto de um fazer, por exemplo, é um índice dos meios materiais, técnicos, construtivos do seu espaço-tempo, ou melhor, da sua história e do tipo de força produtiva empregada na sua construção. Enfim, o índice como real, concreto, singular é sempre um ponto que irradia para múltiplas direções. Mas só funciona como signo quando uma mente interpretadora estabelece a conexão em uma dessas direções. Nessa medida, o índice é sempre dual: ligação de uma coisa com outra. (SANTAELLA, 1983, p. 66)

O índice mantém uma conexão invisível com seu objeto. Tal conexão se estabelece por causalidade, onde o objeto (causa) produz um efeito (signo), e, para Peirce, a mente interpretante do observador apenas registra o fenômeno por semiose (PEIRCE, 1994, CP 2.229). Ele afirma que "psicologicamente, a ação dos índices depende de associação por continuidade" (PEIRCE, 1994, CP 2.306). Para que algo possa ser percebido como índice, basta "que seja constatada a relação com o objeto de que o índice é parte e com o qual está existencialmente conectado" (SANTAELLA, 1983, p. 66). Em uma perspectiva lógica, é apropriado dizer que quando um objeto cria um signo índice, este signo tem o potencial de criar um predicado e por consequência uma proposição na mente daquele que o observa, formando silogismos, tanto indutivos e dedutivos quanto abdutivos. Se o índice faz a ligação de uma coisa com outra, sendo um fenômeno, uma causalidade, então um signo pode criar conhecimento para o sujeito que o observa.


Silogismo

O método indutivo trabalha através da assimilação de dados particulares para uma conclusão geral, e o método dedutivo opera através da assimilação dos dados gerais para uma conclusão particular. Já o método abdutivo, um pouco obscuro, exige certo grau de criatividade e percepção por parte do observador que investiga um determinado fenômeno. Para explicar os métodos dedutivo, indutivo e abdutivo, Peirce (1994, CP 2.623) criou os silogismos dos feijões, substituindo o termo "abdutivo" por "hipótese", uma vez que ambos são sinônimos:

Dedução

Lei: Todos os feijões deste saco são brancos.

Caso: Estes feijões provêm deste saco.

Resultado: Estes feijões são brancos.

Indução

Caso: Estes feijões provêm deste saco.

Resultado: Estes feijões são brancos.

Lei: Todos os feijões deste saco são brancos.

Hipótese

Lei: Todos os feijões deste saco são brancos.

Resultado: Estes feijões são brancos.

Caso: Estes feijões provêm deste saco.


Abdução

Em todos os experimentos no silogismo dos feijões é possível dizer que cada conclusão é um signo, mais precisamente signo indiciário, tanto na dedução e na indução quanto na abdução, uma vez que os punhados de feijão são indícios (signos) para o que existe no interior do saco (objeto). A inferência abdutiva deve ser testada pelo indivíduo, pois uma abdução "é a adoção provisória de uma hipótese" (PEIRCE, 1994, CP 1.68), sendo, portanto, passiva de contingência. "A abdução consiste em analisar os fatos e elaborar uma teoria para explicá-los" (PEIRCE, 1994, CP 5.145), porém, ela apenas explica os fatos, mas não os resolve por definitivo. "A abdução é o processo de formar uma hipótese explicativa. É apenas uma operação lógica que introduz uma ideia nova" (PEIRCE, 1994, CP 5.171). Em outras palavras, a abdução necessita de complemento final através de indução para comprovar os fatos observados, pois "a abdução apenas sugere o que algo pode ser" (PEIRCE, 1994, CP 5.171).

Peirce insiste nesta questão em mais alguns pontos, argumentando que "a abdução não nos comete a nada. Apenas faz com que uma hipótese seja colocada em nosso arquivo de casos a serem julgados" (PEIRCE, 1994, CP 5.602), e que "a abdução [...] é meramente algo preparatório. É o primeiro passo do raciocínio científico, sendo a indução o passo final" (PEIRCE, 1994, CP 7.218). Marcelo Truzzi (2014, p. 78-79) explica que quando uma conclusão por meio de uma inferência abdutiva é usada, ela não passa de "uma conjectura acerca da realidade que necessita ser validada por meio de teste". Essa contingência da abdução também é apontada por Santos (2016, p. 158), quando ele alega que "devemos considerar que a inferência abdutiva apresenta um caráter falível e não pode ser tomada como certeza". Estas dificuldades apresentadas são capazes de levantar a seguinte questão: como saber o que pode ser considerada uma boa abdução acerca dos fatos?

O que é uma boa abdução? Como uma hipótese explicativa pode ser digna de ser classificada como hipótese? Claramente, ela deve explicar os fatos. Mas que outras condições ela deveria cumprir para ser boa? A questão da bondade de qualquer coisa é se essa coisa cumpre sua finalidade. Qual é, então, a finalidade de uma hipótese explicativa? Seu fim é, através da sujeição ao teste do experimento, evitar toda surpresa; e o estabelecimento de um hábito de expectativa positiva que não irá nos desapontar. Qualquer hipótese, portanto, pode ser admissível, na ausência de qualquer contrário, desde que seja capaz de verificação experimental, e somente na medida em que seja capaz de tal verificação. Esta é aproximadamente a doutrina do pragmatismo. Mas aqui uma grande questão se abre diante de nós. O que devemos entender por verificação experimental? A resposta para isso envolve toda a lógica da indução. (PEIRCE, 1994, CP 5.197)

Mesmo que a inferência abdutiva seja um argumento frágil (PEIRCE, 1994, CP 2.625), para Peirce "a divisão inferencial em abdução, dedução e indução pode ser quase que considerada a chave para a lógica" (PEIRCE, 1994, CP 2.98). Outros autores seguem a mesma afirmação:

Antes de mais nada, uma abdução é uma inferência. Isto quer dizer que o último estágio de um argumento abdutivo consiste em extrair uma conclusão de suas premissas. Nesse sentido, a abdução é tão formal e mecânica quanto a dedução e a indução: o modo pelo qual se tira a conclusão é rigidamente governado por uma regra. Também nesse sentido, a abdução não é mais original ou inventiva do que a dedução e a indução. Tampouco parece haver condições pertinentes para se pensar que uma ou outra das inferências seja psicologicamente mais fácil ou mais difícil do que a outra. Quando tenho diante de mim duas premissas especificamente apropriadas, se as reconheço como tal e me remeto à regra inferencial específica, estarei capacitado a imediatamente tirar minha conclusão - dedutiva, indutiva ou abdutiva. Em outras palavras, para usar a terminologia de Peirce, é igualmente mecânico e automático derivar a regra partindo do caso e do resultado (indução), quanto derivar o resultado partindo da regra e do caso (dedução), ou, o caso partindo da regra e do resultado (abdução). (BONFANTINI; PRONI, 2014, p. 144)


Índices e abduções

Nöth usa como amostra de semiose trechos do livro Alice no País das Maravilhas (1865), de Lewis Carroll. Este fragmento escolhido por Nöth serve também como exemplo para o método abdutivo. Veja: no momento em que Alice encontra uma garrafa cujo rótulo contém em sua descrição o dizer "beba-me", a personagem verifica que o rótulo desclassifica o líquido da garrafa como veneno ou similar, "uma vez que conhece o código estabelecido pelos farmacêuticos e usuários de drogas químicas" (NÖTH, 1995, p. 105). Nöth identifica dois signos: o primeiro está no rótulo "beba-me" e o segundo está na ausência do rótulo "veneno", caracterizando um "signo zero" (1995, p. 106).

Alice utilizou de inferência abdutiva para raciocinar através dos signos apresentados, pois o signo representante trata-se do rótulo "não-veneno", o objeto é o líquido no interior da garrafa e o signo interpretante é a informação na mente da protagonista, que lhe diz "isso não é veneno". A personagem utilizou de um raciocínio inferencial abdutivo por signos, por indicação, por interpretação dos sinais que a realidade externa lhe enviou, e de forma prática obteve sucesso em sua hipótese. De certa forma, nesta situação, um raciocínio cotidiano foi utilizado: o senso-comum. Para Myrdal (1969, citado por ALVES, 1992, p. 9), "a ciência nada mais é que o senso-comum refinado e disciplinado."

Em Filosofia da Ciência, a premissa lógica conhecida como reducionismo ou navalha de Occam alega que a explicação mais simples para um fenômeno geralmente é a explicação correta (APPEL, 2018, p. 31). Alves (1992, p. 58) também cita este viés reducionista: "se você, à noite, vir ao longe duas luzes que se movem sempre juntas, não é mais fácil crer que se trata de um automóvel que admitir que sejam duas motocicletas perfeitamente sincronizadas?" Embora o autor não utilize o termo navalha de Occam na citação, o conceito ainda se aplica, pois ele argumenta, no mesmo parágrafo, que "a explicação mais simples para o movimento de dois pontos que permanecem sempre numa relação fixa é admitir que eles se encontram pregados em algo" (ALVES, 1992, p. 58).

Sobre o reducionismo aliado ao método abdutivo, Peirce argumenta que "na investigação científica a abdução não pode ter outro objetivo senão a economia" (PEIRCE, 1994, CP 7.220). Quando um observador mantém poder cognitivo suficiente para criar mais de uma hipótese para um problema, explico em meu livro que devemos testar as hipóteses na escala da melhor para a pior, descartando-as, e ainda, se necessário, adicionar novas hipóteses que expliquem o fenômeno (2018, p. 31):

Esta subtração e adição de hipóteses em uma conjectura cria nesta conjectura a qualidade de ser não-monotônica (conjectura que possui um conjunto de elementos que podem ser alterados, diminuídos ou aumentados por conta de uma nova informação que modifica o resultado), sendo comum na abdução novos indícios trazerem novas conclusões que contradizem as teorias anteriores [...]. Por exemplo, em uma investigação criminal o principal suspeito de um crime pode ser Fulano, mas após a obtenção de novos indícios, seguiram-se evidências que tornaram impossível a teoria de que Fulano foi o responsável pelo crime, e uma nova teoria deve substituir a anterior.

Bonfantini e Proni alegam que investigadores criminais necessitam de conhecimento para "comparar e selecionar hipóteses, até que se encontre a linha de interpretação que fornece a única solução que se adequa a todas as pistas" (2014, p. 140). Chibeni concorda que todo detetive utiliza de inferências abdutivas em suas atividades, e vai além, fazendo uma comparação ao trabalho dos cientistas:

A conclusão do conhecido detetive de que o autor do crime foi o mordomo é obtida abdutivamente: a hipótese de que foi o mordomo representa a melhor explicação dos fatos averiguados, em comparação com a de que foi o vizinho, por exemplo. De igual modo, diante de certos sintomas e ocorrências de contágio, de tais e tais reações químicas e imagens na tela de um microscópio eletrônico, um biólogo eventualmente concluirá, abdutivamente, que existe um vírus de tal tipo, se sua existência explicar bem essa evidência, de modo mais satisfatório do que hipóteses rivais, como as de que existe uma certa bactéria ou um certo humor morbífico. (1996, p. 49)

Um cientista, um biólogo ou um médico utiliza de um raciocínio inferencial através de signos. A semiologia médica ou propedêutica, por exemplo, visa diagnosticar uma enfermidade a partir de sinais e sintomas que possam ser percebidos de forma visual (como uma mancha na pele), auditiva (como um chiado nos pulmões), ou tátil (como um enrijecimento dos músculos). Em outras palavras, sinais e sintomas médicos são signos que representam seu objeto: a enfermidade do paciente. De mesmo modo, um detetive busca os sintomas em uma cena criminal para descobrir seu elemento originário, o culpado pelo crime, o objeto que causou o signo. Comparação similar também é feita por Alves, posto que o mesmo considera a atividade do cientista próxima da atividade dos caçadores, dos pescadores e dos detetives, e que os cientistas ao perceberem isso "poderão ganhar uma dose extra de sabedoria, [...] caçando, pescando, quando não lendo aventuras de Sherlock Holmes" (1992, p. 92).

Para reproduzir logicamente o método abdutivo utilizado pelos detetives, Truzzi (2014, p. 78) criou uma réplica dos silogismos de Peirce:

Dedução

Caso: Todos os graves ferimentos à faca resultam em sangramento.

Resultado: Este foi um grave ferimento à faca.

Regra: Houve sangramento.

Indução

Caso: Este foi um grave ferimento à faca.

Resultado: Houve sangramento.

Regra: Todos os graves ferimentos à faca resultam em sangramento.

Abdução

Caso: Todos os graves ferimentos à faca resultam em sangramento.

Resultado: Houve sangramento.

Regra: Este foi um grave ferimento à faca.


Signos em Sherlock Holmes

Seguindo a linha de investigação criminal, a partir deste ponto o artigo se propõe a explicar os signos e as inferências contidas em trechos do romance Um estudo em vermelho (2003), a primeira aventura do personagem Sherlock Holmes, escrita por Arthur Conan Doyle.

Holmes e seu companheiro, Dr. John Watson, tomaram uma charrete em direção à cena do crime, um homicídio ocorrido numa residência. Por decisão do detetive, a dupla desceu da charrete numa distância de cem metros do local, continuando seu percurso a pé (Holmes considera a possibilidade de uma expansão de seu elemento de estudo, a cena do crime, a fim de encontrar detalhes possivelmente relevantes ao preservá-la). Quando se encontrou com um detetive da Scotland Yard, a famosa polícia inglesa, Holmes perguntou se ele também havia chegado ali de charrete. A resposta foi negativa.

Ao entrar na sala a qual o crime foi cometido, Holmes começou a analisar o corpo da vítima, um homem com cerca de quarenta anos, deitado com o rosto para cima, sem nenhum sinal de luta corporal. Havia manchas de sangue ao redor do corpo, mas não havia ferimento. Após a análise de um dos cômodos da casa, foi descoberto na parede a palavra rache ("vingança" em alemão) escrita em sangue. Terminada sua perícia, Holmes voltou-se aos demais detetives e lhes entregou sua conclusão:

O assassino é um homem. Ele tem mais de um metro e oitenta de altura, é jovem, tem pés pequenos para sua altura, usava botas grosseiras de bico quadrado [...]. Chegou aqui com sua vítima em uma carruagem de quatro rodas, puxada por um cavalo com três ferraduras velhas e uma nova, na pata dianteira direita. Muito possivelmente, o assassino tem o rosto vermelho. (DOYLE, 2003, p. 34)

Espantado, Watson perguntou à Holmes como essas hipóteses lhe vieram à mente. Ele lhe explicou que a primeira coisa que notou em frente à casa foram dois sulcos profundos no chão (signos indiciários/representante), causados pelas rodas de uma carruagem (objeto que produziu o signo). O detetive da Scotland Yard não havia chegado no local por este meio de transporte, então o veículo que produziu os sulcos manteve relação com o crime (ao questionar o detetive da Scotland Yard, Holmes confirmou sua hipótese). Pela profundidade dos sulcos, a carruagem passou boa parte da noite ali (inferência abdutiva), e Holmes ainda arrisca o palpite de que o cocheiro provavelmente é o assassino (inferência abdutiva). Nas pegadas (signos) deixadas pelo cavalo (objeto) que conduzia a carruagem, a marca de uma das patas era mais definida que as demais, sendo assim, uma ferradura era nova, e as outras, mais velhas.

Neste trecho fica perceptível que um único signo pode ser capaz de gerar vários signos interpretantes. Por exemplo, os sulcos no chão representam: rodas, carruagem, tempo de parada da carruagem, cocheiro culpado; e as pegadas representam: cavalo, confirmação de que o veículo é uma carruagem, ferraduras velhas e uma nova.

Sobre a criação de vários signos interpretantes/inferências abdutivas em sequência, Peirce alegou que um signo "relaciona-se com uma segunda coisa, seu objeto, [...] trazendo uma terceira, seu interpretante, trazendo uma quarta coisa em relação ao objeto, ao infinito" (1994, CP 2.92). Em outra passagem, Peirce diz que "o interpretante se torna um signo, ao infinito" (1994, CP 2.303). Evidentemente, tal infinitude não funciona na prática, e deve-se considerar também a premissa de Occam, limitando os elementos que serão utilizados para a criação da hipótese, evitando extrapolações.

A altura do assassino foi medida por Holmes através da largura de suas pegadas (signos) e da palavra rache escrita na parede (signo), pois, segundo o detetive, quando uma pessoa escreve em uma parede, instintivamente ela escreve na altura dos olhos (inferência abdutiva). Sobre a hipótese do assassino ser jovem (inferência abdutiva), Holmes observou na entrada da residência dois pares de pegadas (signos): do assassino e da vítima. Havia uma poça d'água de um metro e trinta e cinco que o assassino pulou, enquanto as pegadas da vítima contornavam esta poça. Um homem velho não seria capaz de dar passos tão largos sobre uma poça. Como Holmes analisou as solas das botas do cadáver, concluiu, por suas pegadas, que o homem que pulou a poça d'água tratava-se do assassino.

Sobre ter o rosto avermelhado, isto foi inferido através das manchas de sangue no chão, pois, se o sangue não pertencia à vítima, então pertencia ao assassino. Como não houve luta, o assassino deve ter sangrado sozinho. Para sangrar sozinho, imaginando que não se feriu de outra forma, deve possuir uma compleição sanguínea que o faz sangrar pelo nariz em momentos de estresse, portanto, seu rosto possivelmente é vermelho.

Segundo Truzzi, Holmes utiliza de uma lógica inadequada, "quando não sem validade" (2014, p. 79), em suas duzentas e dezessete inferências abdutivas durante todo o cânone, considerando que o detetive testa de fato suas hipóteses em cerca de apenas vinte e oito de suas investigações. Porém, na mesma página, Truzzi admite que o personagem conseguiu antecipar muitas das técnicas da investigação criminal moderna, como a grafologia, a antropometria e até mesmo alguns aspectos psicanalíticos.

Assim como realizado por Truzzi, segue abaixo uma reprodução dos silogismos peirceanos, porém baseados na hipótese de Holmes sobre a jovialidade do assassino ao pular a poça d'água:

Dedução

Lei: Todo jovem é capaz de pular poças.

Caso: Esta pessoa é jovem.

Resultado: Esta pessoa é capaz de pular poças.

Indução

Caso: Esta pessoa é jovem.

Resultado: Esta pessoa é capaz de pular poças.

Lei: Todo jovem é capaz de pular poças.

Abdução

Lei: Todo jovem é capaz de pular poças.

Resultado: Esta pessoa é capaz de pular poças.

Caso: Esta pessoa é jovem.


Considerações finais

Os métodos de Holmes são válidos no mundo real? Em até certo ponto, na prática, a resposta é sim. Mas que ponto seria esse? O ponto em que uma hipótese é tida apenas como uma interrogação e não como afirmação. Ela é vulnerável às mudanças repentinas por encontrar-se em um nível diferente do nível de certeza. Para chegar ao nível de certeza, e isto é realizado por meio de teste, ela não será mais uma hipótese, ela passa para o nível hierárquico de prova, de objeto axiomático. Holmes crê que suas hipóteses são na verdade axiomas, que se revelam a ele em formato de afirmação. Em muito, sua base de certezas provém de uma personalidade arrogante, sendo isto o que o impulsiona e o faz prosperar em seus casos. Aliás, o sucesso de Holmes se deve ao fato de que o ambiente fictício em que se encontra está sempre a seu favor.

Está claro que existem semelhanças entre os estudos de Charles Sanders Peirce e as aventuras escritas por Arthur Conan Doyle. Também está claro que signos indiciários e os silogismos dedutivo, indutivo e abdutivo tratam-se de sinônimos, e que todo raciocínio é um signo. Também está claro que os signos são utilizados nas mais diversas profissões, áreas acadêmicas e situações do cotidiano. Mas quando se deve deliberadamente pensar em utilizar a semiótica? Como saber quando deixar de usá-la? A captação voluntária de signos deve ser usada no início de uma investigação, quando os elementos necessários devem ser selecionados ao demonstrarem algum indício sobre o fenômeno ao todo. Em seguida, o pensamento por semiose dará lugar ao raciocínio por abdução, que deverá ser testado por meio da indução.

O mundo está repleto de signos? Com certeza. A utilização de signos, tanto naturais quanto convencionais para a interpretação da realidade, para a "leitura" das coisas do mundo, é fundamental para se compreender os elementos que rodeiam a humanidade e são criados por ela.


Referências

ALVES, Rubem Azevedo. Filosofia da ciência: Introdução ao jogo e suas regras/ Rubem A. Alves. São Paulo: Brasiliense, 1992.

APPEL, Luan Amaral Sityá. Introdução à semiologia investigativa/ Luan Amaral Sityá Appel. Maringá: Viseu, 2018.

BONFANTINI, Massimo A; PRONI, Giampaolo. Suposição: Sim ou não?, Eis a questão. In: ECO, Umberto; SEBEOK, Thomas A. (org.). O signo de três. 1 edição. São Paulo: Perspectiva, 2014. p. 132-147.

CHIBENI, Silvio Seno. A inferência abdutiva e o realismo científico/ Silvio Seno Chibeni. Cadernos de História e Filosofia da Ciência, São Paulo, 1996, série 3, 6, p. 45-73, 1996.

DOYLE, Arthur Conan. Um estudo em vermelho/ Arthur Conan Doyle. Tradução: Antônio Carlos Vilela. São Paulo: Melhoramentos, 2003.

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